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A bondade do povo brasileiro

image Lembro-me que o presidente Lula certa vez disse que ao ir para uma negociação acreditava que todo ser humano tem um coração. Não me lembro exatamente as palavras que ele usou, mas o que entendi é que ao ir a Davos ou em outra reunião qualquer para falar do programa fome zero ou defender uma política que beneficie os menos favorecidos ele contava que os poderosos eram pessoas intrinsecamente boas, e assim poderia obter resultados positivos.

O povo brasileiro é normalmente conhecido por ser um povo que tem um bom coração. Ele não é frio como os europeus. Sua história não é marcada por guerras ou revoluções sangrentas. Mas o pensamento de Lula vai além da nação brasileira e se estende para todo ser humano. O que ele pensa na verdade é uma idéia que vem do iluminismo e inspirou a revolução francesa, que o homem é naturalmente bom.

A moral do coração de Rousseau visava apontar um caminho que levaria o homem à liberdade. Livre dos preconceitos e pressões civis o homem poderia exercer sua bondade nata. A propriedade privada seria causa e efeito da ganância e dos males sociais.

Embora o pensamento de Rousseau esteja superado, quer dizer, foi com o tempo revisto, aprimorado e complementado por Kant, Hegel e tantos outros, algo de Rousseau permanece para nós hoje. Devemos crer dentro de cada ser humano há um coração. Não de forma ingênua, não utópica. Nem toda propriedade privada é nociva. Mas o fato é que o brasileiro seja ele pobre ou rico possui implantado em sua alma a capacidade de ser bom. Ele pode ser generoso, pode ser altruísta, pode se arrepender de suas próprias falhas e tentar um novo caminho. E não só o brasileiro, mas todo ser humano.

Claro que essa bondade ou moral está vinculada a uma história do povo brasileiro e à sua cultura. Revendo esses capítulos e corrigindo os erros do passado nosso país teria melhores condições de dar o salto que precisamos como nação líder no contexto global da atualidade.

O combate à violência, à pobreza, o estabelecimento de um pacto social onde todos tenham deveres e direitos que contribua para o bem comum seriam frutos desta clareza no entendimento de quem somos de quem queremos ser como nação.

Queremos mais justiça? Mais igualdade? Mais riquezas?

A melhor divisão da renda no Brasil não seria a solução de todos os problemas, mas apontaria um caminho em direção a uma qualidade de vida melhor.

E para que haja distribuição de renda tem que haver bondade. Não há outro caminho.

Por uma filosofia brasileira

Será que existiria isso, uma filosofia brasileira? Uma forma de pensar brasileira, uma lógica, uma escala de valores propriamente brasileiros?

A pós-modernidade nos abre campo para a diferença, para a subjetividade para o relativismo. Então é hora de nos auto-conhecermos e nos auto-afirmarmos.

Precisamos, creio eu, apenas criarmos os mecanismos corretos para promoção e desenvolvimento das riquezas do nosso saber e de nossos conhecimentos. Que a sociedade saiba exaltar e remunerar esses expoentes do saber, uma vez comprovados seus méritos. E que esses méritos sejam medidos dentro de padrões brasileiros. Não necessariamente de acordo com eficácia econômica, sucesso profissional, ganhos materiais e etc. Será que o Brasil não têm mostrado excelência e características antropológicas superiores a outras nações? Quais seriam então elas?

O dia que o Brasil despertar do seu sono, e esse dia está aí, ele acordará muitos outros povos com o som da sua voz.

Somos todos pós-modernos?

Frei Betto

A resposta é sim se comungamos essa angústia, essa frustração frente aos sonhos idílicos da modernidade. Quem diria que a revolução russa terminaria em gulags, a chinesa em capitalismo de Estado; e tantos partidos de esquerda assumiriam o poder como o violinista que pega o instrumento com a esquerda e toca com a direita?

Nenhum sistema filosófico resiste, hoje, à mercantilização da sociedade: a arte virou moda; a moda, improviso; o improviso, esperteza. As transgressões já não são exceções, e sim regras. O avanço da tecnologia, da informatização, da robótica, a gloogleatização da cultura, a telecelularização das relações humanas, a banalização da violência, são fatores que nos mergulham em atitudes e formas de pensar pessimistas e provocadoras, anárquicas e conservadoras.

Na pós-modernidade, o sistemático cede lugar ao fragmentário, o homogêneo ao plural, a teoria ao experimental. A razão delira, fantasia-se de cínica, baila ao ritmo dos jogos de linguagem. Nesse mar revolto, muitos se apegam às “irracionalidades” do passado, à religiosidade sem teologia, à xenofobia, ao consumismo desenfreado, às emoções sem perspectivas. 

Para os pós-modernos a história findou, o lazer se reduz ao hedonismo, a filosofia a um conjunto de perguntas sem respostas. O que importa é a novidade. Já não se percebe a distinção entre urgente e importante, acidental e essencial, valores e oportunidades, efêmero e permanente.

A estética se faz esteticismo; importa o adorno, a moldura, e não a profundidade ou ao conteúdo. Ao pós-moderno é refém da exteriorização e dos estereótipos. Para ele, o agora é mais importante que o depois.

Para o pós-moderno, a razão vira racionalização, já não há pensamento crítico; ele prefere, neste mundo conflitivo, ser espectador e não protagonista, observador e não participante, público e não ator.

O pós-moderno duvida de tudo. É cartesianamente ortodoxo. Por isso não crê em algo ou em alguém. Distancia-se da razão crítica criticando-a. Como a serpente Uroboros, ele morde a própria cauda. E se refugia no individualismo narcísico. Basta-se a si mesmo, indiferente à dimensão social da existência.

O pós-moderno tudo desconstrói. Seus postulados são ambíguos, desprovidos de raízes, invertebrados, sensitivos e apáticos. Ao jornalismo, prefere o shownalismo. 

O discurso pós-moderno é labiríntico, descarta paradigmas e grandes narrativas, e em sua bagagem cultural coloca no mesmo patamar Portinari e Felipe Massa; Guimarães Rosa e Paulo Coelho; Chico Buarque e Zeca Pagodinho.

O pós-modernismo não tem memória, abomina o ritual, o litúrgico, o mistério. Como considera toda paixão inútil, nem ri nem chora. Não há amor, há empatias. Sua visão de mundo deriva de cada subjetividade.

A ética da pós-modernidade detesta princípios universais. É a ética de ocasião, oportunidade, conveniência. Camaleônica, adapta-se a cada situação. 

A pós-modernidade transforma a realidade em ficção e nos remete à caverna de Platão, onde nossas sombras têm mais importância que o nosso ser, e as nossas imagens que a existência real.

Nossa filosofia precisa ser revista

Nossa filosofia precisa ser revista, recriada. Não somente as filosofias de vida, mas a científica mesmo. Não adianta introduzirmos elementos gerais de conteúdo filosófico em nossa mente brasileira, os quais são extremamente estranhos à nossa mentalidade e forma de pensar.

A metafísica, a epistemologia, a lógica e a ética em que vivemos e entendemos nosso cosmo precisam ser autênticos, ou só servirão como instrumento de dominação.