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Arquivo para dezembro, 2008

Obama: a realização do sonho de Luther King

Barack ObamaA eleição do afro-americano Barack Hussein Obama para a presidiencia dos EUA realiza o sonho de Luther King Jr:”tenho um sonho de que um dia as pessoas seráo julgadas não pela cor de sua pele, mas pela força de seu caráter”. Tudo parece indicar que se iniciou, na política, um tempo pós-racista, pois tanto os eleitores quanto o cadidato não repararam a cor da pele mas a pessoa e suas idéias.

 Esta eleição sinaliza também o fim da era dos fundamentalismos: do mercado, iniciado por  Tatcher e Reagan, responsável pela atual crise econômico-financeira. E do político-religioso que alimentou a concepção imperial e belicosa da política externa dos EUA. Bush e Reagan acreditavam no Armageddon e no destino-manifesto, quer dizer,  na excepcionalidade conferida por Deus aos EUA com a missão de levar a todo o mundo os valores da sociedade americana de cariz capitalista e individualista. Isso era feito por todos os meios, inclusive com conspirações, golpes de estado, articulados pela CIA e guerras “humanitárias”. Essa idéia de missão explica a arrogância dos presidentes, bem expressa numa frase do candidato McCain: “Os EUA são o farol e o líder do mundo. Podemos agir como bem entendemos: afinal somos o único poder da Terra. Os inimigos de ontem e de hoje hão de temer o nosso porrete”.

 Bush criou o terrorismo de estado, constituindo-se no maior perigo para a humanidade. Não há de se admirar que tenha levado a uma ampla desmoralização do pais, inclusive  a um anti-americanismo generalizado no mundo. 

 Essa atitude parece ter sido  superada com Obama. À estratégia da guerra e do intervencionismo, ele opoõe a  do dialogo aberto com todos, até com os talibãs. Enfatizou:”é preciso mais que tudo dialogar; a saída é uma ampla negociação e não apenas ataques aéreos e matança de civis”. Ele está convencido de que os EUA não merecem ganhar a guerra contra o Iraque porque está assentada sobre uma mentira e por isso, é injustificável.

 Mas mais que tudo, ele soube captar o que estava latente na sociedade especialmente nos jovens: a necessidade de mudança. “Change”-mudança foi a grande palavra geradora. Suscitou esperança e auto-estima:”sim nós podemos”. Atirou as atenções para o futuro e para as oportunidades novas que se estão desenhando e não para a continuidade do passado e do presente desolador. Com isso falou para a profundade das pessoas e as mobilizou para dar um salto absolutamente inesperado e novo: eleger um negro, representante de uma tragédia humana que envergonha a história americana, de resto com páginas brilhantes de liberdade, de criatividade, de democracia, de ciência, de técnica e de artes que enobrecem  cultura norte-americana. Obama deixou claro que a real força dos EUA não reside nas armas mas nestes valores morais e no potencial de esperança que vige no povo.

 A eleição de Obama parece possuir algo de providencial, como se fora um gesto da compaixão divina para com a humanidade. Vivemos tempos dramáticos com grandes crises: a ecológica, a climática, a alimentar, a energética e a econômica. O arsenal conceptual e pratico disponível não oferece condições para forjar uma saída libertadora.  Precisamos de uma mudança, de um novo horizonte utópico, de coragem para inventar novos caminhos. Faz-se necessário uma figura carismática que inspire confiança, segurança e serenidade para enfrentar estes cataclismos e galvanizar as pessoas para um novo ensaio de convivência, um modo diferente de arquitetar a economia e de montar um tipo de globalização pluripolar que respeite as diferenças e possa incluir a todos num mesmo destino juntamente com a Casa Comum, a Terra.

 Barack Obama preenche estas exigências de carisma. Se for realmente profunda, a esperança criará seu caminho por entre os escolhos e as ruínas da velha ordem.

tirado da home page de Leonardo Boff

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A bondade do povo brasileiro

image Lembro-me que o presidente Lula certa vez disse que ao ir para uma negociação acreditava que todo ser humano tem um coração. Não me lembro exatamente as palavras que ele usou, mas o que entendi é que ao ir a Davos ou em outra reunião qualquer para falar do programa fome zero ou defender uma política que beneficie os menos favorecidos ele contava que os poderosos eram pessoas intrinsecamente boas, e assim poderia obter resultados positivos.

O povo brasileiro é normalmente conhecido por ser um povo que tem um bom coração. Ele não é frio como os europeus. Sua história não é marcada por guerras ou revoluções sangrentas. Mas o pensamento de Lula vai além da nação brasileira e se estende para todo ser humano. O que ele pensa na verdade é uma idéia que vem do iluminismo e inspirou a revolução francesa, que o homem é naturalmente bom.

A moral do coração de Rousseau visava apontar um caminho que levaria o homem à liberdade. Livre dos preconceitos e pressões civis o homem poderia exercer sua bondade nata. A propriedade privada seria causa e efeito da ganância e dos males sociais.

Embora o pensamento de Rousseau esteja superado, quer dizer, foi com o tempo revisto, aprimorado e complementado por Kant, Hegel e tantos outros, algo de Rousseau permanece para nós hoje. Devemos crer dentro de cada ser humano há um coração. Não de forma ingênua, não utópica. Nem toda propriedade privada é nociva. Mas o fato é que o brasileiro seja ele pobre ou rico possui implantado em sua alma a capacidade de ser bom. Ele pode ser generoso, pode ser altruísta, pode se arrepender de suas próprias falhas e tentar um novo caminho. E não só o brasileiro, mas todo ser humano.

Claro que essa bondade ou moral está vinculada a uma história do povo brasileiro e à sua cultura. Revendo esses capítulos e corrigindo os erros do passado nosso país teria melhores condições de dar o salto que precisamos como nação líder no contexto global da atualidade.

O combate à violência, à pobreza, o estabelecimento de um pacto social onde todos tenham deveres e direitos que contribua para o bem comum seriam frutos desta clareza no entendimento de quem somos de quem queremos ser como nação.

Queremos mais justiça? Mais igualdade? Mais riquezas?

A melhor divisão da renda no Brasil não seria a solução de todos os problemas, mas apontaria um caminho em direção a uma qualidade de vida melhor.

E para que haja distribuição de renda tem que haver bondade. Não há outro caminho.